26 junho 2009

O Orador e a Refutação


O raciocínio pode se apresentar de diversos modos: direto, indireto ou como refutação. Segundo os estudiosos da lógica, todo raciocínio pode se refutado até o infinito. Não é o caso de nos exercitarmos nas lucubrações mentais, tal qual faziam os filósofos da Idade Média. Queremos apenas chamar a atenção para que o orador tome consciência das possíveis refutações que se poderiam fazer ao seu discurso.

Segundo Aristóteles, refutação é "todo raciocínio com contradição na conclusão". Trata-se de mostrar que o raciocínio do adversário transgride as regras da língua ou da lógica, embora apresentando as aparências de validade. O sofisma supõe a intenção de enganar; o paralogismo não coloca em questão a boa-fé de quem enuncia.

A Lógica de Port-Royal, no capítulo XIX, lembra-nos de que podemos ser sempre refutados quando:

1. Provar outra coisa sem ser o que está em questão.
2. Supor por verdadeiro o que está em questão.
3. Tomar por causa o que não é causa.
4. Proceder a enumerações imperfeitas.
5. Julgar uma coisa pelo que lhe diz respeito somente por acidente.
6. Passar do sentido dividido ao sentido composto ou do sentido composto ao dividido.
7. Passar do que é verdadeiro sob certo aspecto ao que é verdadeiro simplesmente.
8. Abusar de diversas maneiras da ambigüidade das palavras.
9. Tirar uma conclusão geral de uma indução defeituosa.

Em se tratando das transgressões ou erros suscetíveis de invalidar as formas diretas, os céticos nos transmitiram cinco modos da suspensão do julgamento:

1) discordância – "Descobrimos que, numa proposição que nos põem diante dos olhos, há, na vida e nos filósofos, uma discordância que não se pode eliminar, e portanto, sem podermos preferir ou rejeitar, chegamos à suspensão do julgamento".
2) regressão ao infinito – "Dizemos que a prova que é dada para garantir a proposição tem necessidade de outra, e esta de uma outra, infinitamente, e assim, por não termos onde começar o raciocínio, a suspensão do julgamento é a conseqüência natural".
3) tirado da relação – "O objeto aparece deste ou daquele modo conforme o que julga e o que acompanha a observação, mas abstemo-nos de julgar o que esse objeto é por natureza".
4) postulado ou posição de base – "Lançados ao infinito, os dogmáticos tomam um ponto de partida que não provam, mas ao qual acham justo dar o assentimento de maneira simples e sem demonstração".
5) círculo vicioso – "Aquilo que deve confirmar a coisa em questão tem necessidade de ser provado pela coisa em questão; assim, não podendo tomar nenhum dos dois para encontrar o outro, abstemo-nos de julgar a ambos".

Comentários:

1) Começamos a discorrer sobre determinado assunto e uma pessoa pergunta pela sua causa. Falamos, ela pergunta pela causa da causa, e assim sucessivamente. Somos conduzidos a um círculo vicioso e não conseguimos chegar a lugar algum.
2) Quando um ouvinte já formou uma imagem negativa de nós, comor orador, tudo o que viermos a falar, mesmo a mais pura verdade, será imediatamente refutado por ele, pois, por princípio, já nos refutou, mesmo antes de nos ouvir. É opreconceito.

Fonte de Consulta

COSSUTTA, Frédéric. Elementos para Leitura dos Textos Filosóficos. Tradução de Ângela de Noronha Begnami e outros. 2.ed., São Paulo: Martins Fontes, 2001. (Coleção Leitura Crítica)
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17 junho 2009

Semântica


Semântica é o estudo das relações entre linguagem, pensamento e comportamento: entre como conversamos, por conseguinte, como pensamos e, portanto, como agimos. De acordo com Abbagnano, em seu Dicionário de Filosofia, semântica é a doutrina que considera as relações dos signos com os objetos que lhes se referem, que é a relação de designação. Daí, o significado ou significância ser a possibilidade de um signo referir-se a um objeto.

Semântica e discussões. Muitas discussões se degeneram por falta de entendimento entre os seus participantes. Algumas vezes, pelas afirmações egocêntricas, tais como: "Você está absolutamente errado"; "Eu possuo anos de experiência neste assunto"; "Eu sei o que estou falando". Outras vezes, pela colocação indevida das frases. Exemplo: desenha-se um quadrado e se escreve dentro dele: "Toda a afirmação neste quadrado é falsa". Ora, como esta frase está dentro do quadrado, ela também será falsa.

Incapacidade de ouvir o outro. As pessoas, devido às diversas tribulações do dia-a-dia, estão mais preocupadas com elas mesmas, rejeitando a audição do próximo. Observe um ouvinte numa conferência. Como quer fazer valer os seus pontos de vista, tende a achar as elocuções dos outros uma interrupção enfadonha do fluxo dos seus próprios pensamentos. Este bloqueio, contudo, pode ser amenizado se o ouvinte usar a empatia, ou seja, vivenciar o problema do mesmo modo que o emissor.

Semântica internacional. As dificuldades na comunicação internacional são inúmeras; a pior delas, porém, é a de não ter consciência da mesma. Numa conferência internacional, podemos até nos valer de bons intérpretes, que fazem a devida tradução da língua. O problema, contudo, não reside aí, mas, sim, nos padrões de pensamentos daquela comunidade, pois quer queiramos ou não somos influenciados pelos usos e costumes de um povo, de uma nação. Observe as palavras contribuable (francês) e taxpayer (inglês). As duas palavras denotam pagamento de imposto. Para os franceses, contribuable expressa a generalidade do imposto; para os americanos, taxpayer é dinheiro debitado em conta.

Semântica e senso comum. O senso comum é útil para as ações do cotidiano, mas não serve para situações de grande complexidade. Vejamos. Em uma determinada sala, há um grupo de filósofos discutindo sobre os problemas existenciais do ser humano. Terminada a reunião, dirigem-se para a porta, que não se abre. Chega uma pessoa, que não tem a beca de doutor, e diz que é só puxar a maçaneta. Esta solução fácil não pode ser estendida para as questões vitais da existência, porque o sentido da vida é muito mais complexo do que simplesmente abrir uma porta.


A semântica e a decifração dos signos, que se escondem por detrás das palavras, é sempre louvável. Louvável também é a preocupação com o contexto em que a palavra foi dita. Tendo esses cuidados, podemos melhorar consideravelmente a nossa comunicação em sociedade.

Fonte de Consulta

HAYAKAWA, S. I. (Org.). Uso e Mau Uso da Linguagem. Tradução de Anne Maria Jane Koenig e outros. São Paulo: Pioneira, 1977 (Biblioteca Pioneira de Arte e Comunicação)

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Sem Compreensão não Há Comunicação


A comunicação pode ser dividida em: 1) atos que comunicam certo comportamento ou estados emocionais (comunicação do comportamento); 2) atos que comunicam certo conhecimento ou estados mentais (comunicação intelectual). Em toda comunicação há os ruídos, ou seja, as interferências entre a emissão da mensagem e a decodificação por parte do receptor. As avarias na percepção do signo vão desde a forma incorreta de ouvir uma conferência até as dificuldades semânticas na comunicação internacional.

Diz-se que as abelhas se comunicam através da "dança", as formigas por intermédio dos "toques nas antenas", os pássaros pelos "cantos" e os seres humanos pelos "gestos". Será isto comunicação? Sim, mas pertencem ao grupo da comunicação dos estados emocionais. Contudo, difere da comunicação essencialmente humana, que transfere certos conhecimentos e certos estados mentais.

O ato de comunicação realiza-se da seguinte maneira: uma pessoa faz uma declaração; a outra pessoa, ouvindo esta declaração, compreende-a, isto é, experimenta estados mentais análogos (não os mesmos do declarante). Em contraste com a comunicação emocional, a comunicação intelectual pressupõe a compreensão da mensagem, pois as tarefas intelectuais de comunicação só podem ser desempenhadas por uma linguagem de palavras, uma linguagem fônica (ou sua forma escrita).

Anotações sobre as dificuldades de compreensão.

1) Uma criança está brincando numa sala de estar. Um observador diz: "Que criança comportada!" Outro observador, que gosta de móveis mais do que crianças, diz: "Que criança indisciplinada!" Pode-se notar que nenhuma destas afirmações nos dá um "mapa" descritivo do "território" do comportamento da criança.

2) Segundo um relato popular, George Westinghouse projetou um freio de trem operado por ar comprimido. Após tê-lo patenteado, lutou para convencer os administradores das ferrovias do valor da sua invenção. Afirma-se que Cornelius Vanderbilt da Central de Nova York respondeu: "você pretende me dizer, frente a frente, que um trem em movimento pode ser parado com vento?"

3) Padrões de pensamento entre povos. "O entendimento mútuo e as relações pacíficas entre os povos têm sido obstaculizados não apenas pela multiplicidade de línguas, mas também, em grau maior, pelas diferenças dos padrões do pensamento, isto é, pelas diferenças dos métodos adotados para definir as fontes do conhecimento e para organizar o pensamento coerente. Nenhum cérebro pode funcionar livremente sem determinadas suposições quanto à origem de seus conceitos básicos e sua capacidade de relacionar estes conceitos com os de outros. Estas suposições têm sofrido mudanças significativas no transcorrer do tempo e têm variado mais ou menos entre nações e grupos sociais num dado tempo. Estas diferenças nos métodos de raciocinar têm gerado rancor e mesmo ódio". (Karl Pribam)

Ainda: o maior bloqueio à comunicação é a falta de capacidade do homem para ouvir outra pessoa de modo inteligente, compreensivo e hábil.

Fonte de Consulta


HAYAKAWA, S. I. (Org.). Uso e Mau Uso da Linguagem. Tradução de Anne Maria Jane Koenig e outros. São Paulo: Pioneira, 1977 (Biblioteca Pioneira de Arte e Comunicação)
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11 junho 2009

Enunciação do Discurso


Ao enunciar um discurso, o orador deve se preocupar tanto com o conteúdo a ser transmitido quanto com a sua postura física e emocional. O discurso deve tender à universalidade que, para atingir o seu fim, deve apagar as marcas da particularidade, na qual está inserido o enunciador. Embora haja outros tipos de enunciador, como o de identificação e o singularizado, o enunciador universal é o que deve prevalecer.

Em se tratando do enunciador universal, o uso da terceira pessoa é a mais aconselhável. E mesmo que o orador use a primeira pessoa (eu), o teor da mensagem deve caminhar para o universal. Opiniões são opiniões e não refletem a verdade dos fatos. Em Espiritismo, que já tem um corpo doutrinário estabelecido, o "eu acho", o "eu penso" e o "eu creio" deveriam ser rechaçados, e usados somente como força de expressão, pois a convicção doutrinária oferece-nos elementos substanciais para afirmações mais concretas.

Enunciação pressupõe destinação. O destinatário também tem que ser universal. Não é recomendável que o orador dirija-se a uma pessoa em particular. É possível que, durante a sua exposição, separe pessoas e grupos, mas que fique apenas no campo do exemplo. A universalidade significa um conhecimento abrangente, um conhecimento que tende para a verdade, um conhecimento que capte os princípios fundamentais de uma ciência, de uma filosofia, de uma religião.

O enunciador veio para enunciar tal qual o semeador veio para semear. As palavras devem captar a essência do que se pretende transmitir. Tudo, porém, deve passar pelo crivo da razão e da lógica. Uma peça oratória confusa, cheia de impressões vazias, podem mais atrapalhar do que ajudar na divulgação de uma ideia, de uma doutrina. Nesse caso, um estudo mais aprofundado do tema é o recomendável.

A lei da expectativa determina que o principal requisito para que determinadas coisas aconteçam é acreditar que elas vão acontecer. Nesse caso, o enunciador, ao preparar o seu discurso, deve se preocupar e até auxiliar na formação das expectativas do público que vai ouvi-lo. Não adianta apenas a razão, a lógica e a boa argumentação; para atrair, é preciso agradar. Este é o segredo daqueles que falam em público e conseguem permanecer por longos e longos anos arrebatando as plateias. Há oradores tão eloquentes que conseguem até arrancar lágrimas de seus ouvintes. A divulgação dos princípios doutrinários do Espiritismo não precisa chegar a esse ponto, mas um pouco de emoção é bem-vinda.

O enunciador deve tender sempre para o universal, para o racional, para a verdade dos fatos, sem esquecer o emocional. Somente assim conseguirá passar a sua mensagem com mestria.
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