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26 junho 2008

Comunicação Genuína

O princípio básico, inerente à comunicação genuína, é a procura do outro, sem quaisquer tendências que visem ao interesse próprio. Quando o procuramos para proveito próprio, como, por exemplo, para pedir favores escusos, a comunicação deixa de ser genuína, pois foi introduzido um viés no relacionamento interpessoal. Pergunta-se: como estamos nos relacionando com o nosso próximo? Estamos sendo autênticos? Estamos procurando tirar proveito dele? Estamos o usando para o nosso benefício pessoal? Façamos uma pequena reflexão em torno do tema.

O mito, no seu sentido pejorativo, é um dos entraves à boa comunicação. Como isso se dá? Em muitos mitos, há a criação de heróis, de salvadores da pátria. Consciente ou inconscientemente, transferimos a esses heróis a realização de nossos desejos, de nossas aspirações. Damos-lhes uma demasiada importância, fora da realidade. Observe o mito do "cowboy" americano. Ele chega não se sabe de onde, com a finalidade precípua de debelar o mal, de fazer justiça. O casamento não está em seus planos, pois, mesmo com o assédio das mulheres, ele permanece só. Depois de ter estabelecido a paz e a harmonia, despede-se e dirige-se a outra região, para dar continuidade ao seu trabalho.

Vejamos, também, o mito do Narciso. Conta-se que Narciso se debruça sobre um poço e se apaixona pela sua imagem que vê espelhada na água. Nesse mito, o que muitas vezes se esquece, é que Narciso realmente acredita que ama uma outra pessoa. Esse é o ponto essencial do mito; se não prestarmos atenção nele, perderemos a verdadeira mensagem. O que é terrível, é que Narciso não sabe que a imagem no poço é a sua própria imagem e não a de uma outra pessoa. Ao tentar abraçar essa outra pessoa – a sua própria imagem refletida no poço – a fim de sentir o outro, Narciso é amaldiçoado pelos deuses e o objeto de seu amor desaparece.

O celibato é uma forma de comunicação, geralmente caracterizada por mal-entendidos, em virtude dos estereótipos linguísticos ao seu derredor. Pensa-se, de forma geral, que o celibatário é contra o casamento. Esquece-se de que a palavra celibato, cuja origem alemã é ehelos, significa "não-casamento", estado de não ser casado. Muitos espíritos escolhem esta difícil prova, não para o prazer da liberdade, mas para se dedicarem mais inteiramente ao seu próximo. À semelhança de Jesus, essas pessoas estão sempre repletas do amor ágape, do amor transcendental.

Para ilustrar o tema, lembremo-nos das palavras magnanimidade e magnificência, tão bem explicadas por Santo Tomás de Aquino. A magnanimidade é a "grandeza de alma", é o indivíduo que se projeta no tempo e no espaço para adquirir os conhecimentos superiores do espírito. A magnificência é "grandeza no fazer", é a pessoa que sai de si mesmo para auxiliar o seu próximo, através da caridade material e espiritual.

Sair de si implica risco. Saibamos ir ao encontro das necessidades alheias sem, contudo, esforçarmo-nos demasiadamente. Lembremo-nos do adágio dos antigos: "A corrupção do melhor é o pior".

Fonte de Consulta

CURRAN, Charles A. A Dinâmica Psicológica da Vida Religiosa. Tradução de Margarida M. C. Oliva. São Paulo: Loyola, 1978.


A Arte de Calar

A arte de calar não é um tratado de recolhimento ou de êxtase: visa, paradoxalmente, a falar bem, o que se traduz em comunicar aos semelhantes coisas dignas de serem ouvidas, ou seja, assuntos relacionados à virtude, à sabedoria e à utilidade prática da vida. A arte de calar convida-nos a "governar" a língua, concedendo-lhe apenas a "liberdade moderada", no sentido de melhorar a eloquência muda do corpo e do rosto.

Ouvimos mal porque não colocamos em prática os preceitos da sabedoria, que primeiramente traduz-se em saber calar; em segundo lugar, em saber falar pouco e moderar-se no discurso; em terceiro, em falar muito sem falar mal e sem falar demais. Ouvimos mal porque raramente nos lembramos da frase evangélica que diz: "Os que têm ouvidos de ouvir, ouçam". Ouvimos mal porque o nosso silêncio é interesseiro, zombeteiro e dissimulador: estamos sempre maquinando coisas para ludibriar, enganar ou passar por cima de nosso interlocutor.

Alguns princípios necessários para calar: 1) só se deve deixar de calar quando se tem algo a dizer que valha mais do que o silêncio; 2) há um tempo de falar, assim como há um tempo de calar; 3) o tempo de calar deve vir em primeiro lugar, e nunca se pode bem falar quando não se aprendeu antes a bem calar; 4) há menos riscos em calar do que em falar; 5) quando se tem uma coisa importante para dizer, deve-se prestar a ela uma atenção muito especial: é necessário dizê-la a si mesmo, e depois de tal precaução, voltar a dizê-la, para evitar que haja arrependimento quando já não se tiver o poder de voltar atrás no que se declarou.

Escrevemos mal porque escrevemos coisas inúteis e muito longamente as melhores coisas. Esse é o defeito de autores pouco judiciosos que não sabem decidir nem escolher matéria que seja de utilidade. É o caso dos escritores de romance, de anedotas. Eles perdem grande tempo compondo as suas histórias, para que nós, depois, também perdemos o nosso ao lê-las. Na realidade, deveríamos delimitar o que escrevemos; o defeito da extensão é porque não empregamos tempo necessário para limitar, riscar, suprimir e reduzir na justa medida a matéria que temos em mãos.

Alguns princípios necessários para se explicar pelos escritos e pelos livros: 1) só se deve deixar de deter a pena quando se tem algo a escrever que valha mais do que o silêncio; 2) há um tempo de escrever, como há um tempo de deter a pena; 3) não há mais mérito em explicar o que se sabe, do que em calar o que se ignora; 4) a reserva em escrever muitas vezes passa por sabedoria em um tolo e por capacidade em um ignorante; 5) mesmo que se tenha propensão a deter a própria pena, sempre se deve desconfiar de si mesmo; e para impedir a si mesmo de escrever alguma coisa, basta que se tenha muita paixão por escreve-la.

"O silêncio é de ouro e a palavra de prata", diz o anexim. Saibamos moderar o nosso verbo, a fim de que as palavras que saírem de nossa boca ou do nosso punho sejam sempre para estimular, enaltecer, incentivar e nunca para destruir aqueles que convivem conosco.

Fonte de Consulta

DINOUART, Abade. A Arte de Calar. Tradução por Luís Filipe Ribeiro. São Paulo, Martins Fontes, 2001. (Coleção Breves Encontros)

 


O Indivíduo e o Grupo

Um grupo deve decidir tudo por unanimidade. A votação nem sempre mostra o consenso. É preferível discutir mais e esperar por uma oportunidade melhor do que impor um ponto de vista, pois isto fere a suscetibilidade das pessoas. Para obter a unanimidade, os membros do grupo devem fazer concessões, ou seja, os mais fortes devem diminuir o ímpeto de monopólio e os mais fracos esforçar-se por mais espaço nas discussões e debates. A formação de grupo-análise, uma espécie de feedback do comportamento, ajuda sobremaneira a participação consciente do indivíduo no grupo.

Todo o indivíduo é sumamente importante para o grupo. É um erro grave deixar alguém marginalizado, porque destrói a natureza humana. A relação entre o indivíduo e o grupo pode ser comparada ao átomo social, ou seja, o tecido de relações do indivíduo com as outras pessoas. Nesse sentido, o lixeiro e o Presidente da República, embora exerçam funções distintas, cooperam para o equilíbrio socioeconômico de um país. Fazer parte de um grupo não é ter o nome listado numa ata, mas contribuir assiduamente com ideias e ações concretas.

Participar de um grupo é comprometer-se com aquilo que foi decidido. E uma vez tomada uma decisão – após as devidas considerações – não violar a regra, sob pena de mexer na unidade preestabelecida. Um grupo coeso exige de seus membros respeito a suas normas, fidelidade a seus objetivos, estima mútua e espírito de sacrifício. Nesse caso, após uma iniciação, que é a área de segredo do grupo, todos devem carregar a sua bandeira, ou seja, defender ardentemente o que foi proposto e aceito.

“Não há líder, há liderança”. A liderança é a permissão que um grupo autônomo dá a cada um de seus membros para assumir a regulação do conjunto (coordenação do grupo) na ocasião em que a situação corresponde às aptidões específicas de cada um deles. Esse tipo de liderança é denominado de liderança emergencial, para significar que a emergência faz o líder. Não há sentido falar de qualidades naturais de um líder: só a circunstância dirá que membro do grupo, naquela ocasião, é o mais indicado para assumir a liderança. Em cada momento, a liderança se corporifica em cada um dos membros do grupo.

Os que se intitulam líderes naturais devem, portanto, revisar este conceito. Quem sabe não estão fazendo o papel de caudilhos, condutores e chefetes, uma vez que não permitem que a suposta liderança transite pelos membros do grupo? Eles esquecem-se de que a escolha do líder emergencial, em geral, é unânime, espontânea e sem discussão, como se o grupo tivesse tido um insight: parece que todos os membros deslocam os seus olhares para uma única pessoa.

Estamos nos preparando para assumir a liderança emergencial? E se formos indicados para desempenhar uma função de comando, em que se exige muita responsabilidade? Aceitaremos o cargo (e o encargo) ou deixaremos para os outros?

Fonte de Consulta

LIMA, Lauro de Oliveira. Treinamento em Dinâmica de Grupo: No Lar, na Empresa, na Escola. 2.ed., Rio de Janeiro: Vozes, 1970.


Grupo: Pontos Fortes e Fracos

O estilo de vida de uma pessoa nada mais é do que o seu comportamento, a sua confissão pública. O estilo pode ser caracterizado pelos hábitos de escolha, pela maneira de se vestir, pela organização de acontecimentos, pelos tipos de tomada de decisões, pelo modo de se relacionar com chefes e subalternos. O estilo é o orientador da vida e da conduta, induzindo, inclusive, que outras pessoas possam até prever o tipo de reação que este ou aquele terá diante de um problema, de uma dificuldade e de um relacionamento qualquer.

A formação de um grupo de trabalho coeso requer a diversidade de estilos. Há casos de empresas que quiseram contratar somente as melhores cabeças, e acabaram tendo problemas porque, sendo todos de temperamento forte, ninguém ocupava os lugares que exigiam pessoas de temperamento mais fraco. Quando uma pessoa excessivamente técnica se une a uma pessoa excessivamente vendedora, o resultado pode ser muito promissor. As qualidades que faltam em um é compensada pelas que sobram no outro. Um grupo eficiente é aquele em que os seus líderes sabem distribuir adequadamente as oportunidades para todos os participantes.

Compararmo-nos aos outros pode ser um erro fatal. Geralmente vemos nos outros a força, e querendo nos igualar a eles, acabamos aumentando as nossas fraquezas, fazendo surgir, inclusive, o complexo de inferioridade. O correto não é nos voltarmos para as nossas fraquezas, mas imaginar a nossa força aumentando cada vez mais. Observe que o princípio do ensino-aprendizagem fundamenta-se na atualização das virtualidades inscritas na consciência do ser.

O respeito mútuo é uma das condições mais essenciais para o trabalho em equipe. Por respeito mútuo, entendemos a maneira como nós tratamos o próximo. É preciso ter sempre em mente a máxima evangélica de “fazer aos outros o que gostaríamos que nos fosse feito”, caso estivéssemos no lugar deles. Esta máxima aplica-se a todo e qualquer tipo de relacionamento. Não é apanágio de uma religião ou de tópico de mudança comportamental. É uma norma para uma conduta mais ética e eficaz.

O outro deve sempre ser valorizado naquilo que ele tem de melhor. Por pior que seja o seu ponto fraco, criar condições para que possa desenvolver o seu ponto forte. Nesse sentido, não é conveniente dizer que alguém é um zero à esquerda, que não serve para nada, que é um bronco. Antes, porém, verifiquemos o que ele tem de bom; depois, motivemo-lo a desenvolver ainda mais essas qualidades. Esse modo de agir cria o que se chama de sinergia, ou seja, a energia do grupo é maior do que a soma das energias de cada pessoa.

Tomar consciência do que esteja acontecendo com o grupo. Fortalecer o processo através de conversação e discussões amigáveis, onde seja fácil fazer um feedback, tanto positivo como negativo.

 

Grupo e Oposição

Os grupos constituem-se, têm uma dada duração e se desfazem. Do mesmo modo que o indivíduo, cada agrupamento é único e, por isso, deve ser tratado diferenciadamente. Uns são apáticos, outros antipáticos e poucos amadurecidos.

Os opositores são fatores positivos. Nenhuma ideia nova é aceita com facilidade. De qualquer forma, a comunicação do pensamento obriga-os a discutir o assunto. Estando na qualidade de chefe, convém analisar imparcialmente as objeções dos comandados. Quase sempre eles têm razão, mas nem tudo pode ser atendido, principalmente, quando se foge aos fins propostos. Nesse caso, devemos manter-nos inflexíveis, mesmo correndo o risco de ficarmos sós.

Nas situações críticas do grupo, devemos levar em conta os princípios da ação. Convém, assim, colocarmo-nos diante das seguintes questões: de que se trata? O que realmente está em jogo? São os interesses próprios? Os do conjunto? Quando agimos exclusivamente para o proveito pessoal, o grupo se ressente e torna-se rebelde. Todavia, se atuarmos em benefício de todos, desinteressados e ardentes, eles ficarão nossos amigos.

Jamais perder de vista a finalidade. A maioria de nós age em função da utilidade. Por isso, confundimos os meios com os fins. Nesse sentido, o pensamento deve se situar além da técnica. Às vezes, os participantes de um agrupamento se metem em discussões acaloradas sobre o como fazer. Não nos importemos, porque o tempo tudo resolve.

As árvores são reconhecidas pelos seus frutos. Importa-nos trabalhar na edificação de almas compenetradas de si mesmas. Alguns grupos não oferecem dificuldades, mas, também, nada produzem; outros, são rebeldes e criam problemas, contudo fornecem boas obras à sociedade. Não devemos ter preferência por este ou por aquele. Reagirmos plenamente e a "fundo" ao que está ocorrendo "aqui e agora", tem mais eficácia.

A educação de almas não é tarefa fácil. Para que tenhamos bom êxito, devemos sondar-lhes o íntimo, tomando consciência das suas dificuldades. Depois, esquecendo-nos de nós mesmos, trabalharmos arduamente pela melhoria da humanidade

Fonte de Consulta

LEBRET, L. J. Princípios para a Ação. 4. ed. (revista e aumentada), São Paulo, Duas Cidades, 1961.

 

10 junho 2008

Conceito de Liderança

O conceito de liderança tem, hoje, uma acepção bem diversa do que teve na Antiguidade e na Idade Média, em que prevaleciam, com maior ou menor ênfase, a força bruta, o poderio do exército, a autoridade de nascença etc. Nesse sentido, o papel da liderança, na atualidade, desenvolve-se num contexto específico de interações e reflete em si mesmo (e na sua "tarefa") a "situação" desse contexto; manifesta também determinadas motivações do líder e exige atributos peculiares de personalidade e habilidade, além de recursos específicos; relaciona-se ainda com as expectativas dos liderados, seus recursos, suas aspirações e seus intentos.

Esclarecendo a distinção entre uma liderança definida pelo papel e um líder que determina o papel, notamos três tipos de liderança: o líder de rotina, o líder inovador e o líder promotor. O líder de rotina é aquele que não reelabora nem seu papel, nem o contexto em que é chamado a desempenhá-lo; o líder inovador é aquele que reelabora, até radicalmente, o papel-guia de uma instituição já existente; o líder promotor é aquele que sabe criar tanto o seu papel como o contexto onde vai desempenhá-lo. Exemplo: alguém que se torne fundador de um grupo, de um sindicato, partido político, ou até mesmo de um Estado.

Os manuais de liderança apontam as principais qualidades do líder: julgamento, iniciativa, integridade, previdência, energia, encorajamento, capacidade oratória, força de vontade, habilidade nas relações humanas, confiabilidade etc. Lembremo-nos de que essas qualidades pessoais não podem ser motivos de generalizações, sem que ultrapassemos os limites da banalidade. Observe que muitas vezes uma pessoa é líder numa situação, sem o ser, necessariamente, em situações diferentes. Além disso, deve-se distinguir o papel que o líder desempenha, não só da imagem que ele faz de si, como da imagem que os seus comandados fazem dele.

A noção de liderados também tem se modificado ao longo do tempo. Enquanto no passado a autoridade era linear, ou seja, o chefe mandava e o subordinado obedecia, hoje os liderados são partes ativas no processo de liderança, em que a interação entre líder e liderado é uma constante. Pode-se, assim, caracterizar uma tipologia entre líder e liderado: líderes que arrastam as multidões — capazes de terem uma grande ideia e pressionarem a multidão para concretizá-la; líderes que interpretam as multidões — hábeis em explicitar o sentimento que se encontra obscuro na mente da multidão; líderes que representam as multidões — limitando-se a exprimir apenas a opinião da multidão, já conhecida e definida.

A definição de liderança ainda é muito vaga. Entendendo-a "como alguém que guia e alguém que é guiado", ela torna-se bastante abrangente, confundindo-se, inclusive, com a noção de influência. A liderança é sempre ação efetiva, não mero prestigio. Pode-se afirmar que são líderes os que, no interior de um grupo, ocupam uma posição de poder que tem condições de influenciar, de forma determinante, todas as decisões de caráter estratégico. Para isso, devem ser ativos e corresponder legitimamente às expectativas do grupo.

A química mental está sempre presente em todos os aspectos do relacionamento humano. Influenciamos e somos influenciados por outrem. Por isso, a interação entre líder e liderado assume conteúdo relevante na especificação desses conceitos.

Fonte de Consulta

BOBBIO, N., MATTEUCI, N. e PASQUINO, G. Dicionário de Política. 2. ed., Brasília, UNB, 1986.