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01 junho 2026

Nossos Escritos e a Inteligência Artificial

Tese: Comparar nossos textos com aqueles produzidos pela inteligência artificial aprimora o pensamento crítico.

A inteligência artificial é mais do que um banco de dados, pois ela simula o raciocínio quando, por meio da probabilidade estatística, nos fornece respostas elaboradas para as nossas dúvidas. Tendo-a como colaboradora, podemos aperfeiçoar o nosso conhecimento, transformando-o em pensamento crítico.

O uso da IA traz inúmeros benefícios, destacando-se a capacidade de mapear desde a superficialidade até a profundidade de um tema. Como ela processa dados de inúmeras fontes, consegue entregar uma estrutura textual mais fluida e gramaticalmente refinada, lapidando as naturais imperfeições e limitações do nosso primeiro rascunho.

A técnica ideal consiste em um processo simples. Primeiro, estruturamos o texto com nossas próprias palavras, garantindo a autenticidade da ideia. Em seguida, submetemos esse rascunho à IA com instruções específicas para a revisão necessária. Dessa comparação, surge a oportunidade de ajustar nosso raciocínio e enriquecer o conteúdo com novas perspectivas.

Ao utilizarmos a IA, convém termos em mente que, por sua própria natureza, ela é capaz de nos oferecer o vasto repertório da linguagem humana; no entanto, jamais substituirá o sentimento e a vivência do ser humano, que constituem a fonte primordial do pensamento crítico.

Um exercício interessante: escolhamos um parágrafo de nossa autoria e tentemos melhorá-lo em busca de mais clareza. Em seguida, submetamo-lo ao escrutínio da IA. O resultado obtido deve passar, novamente, pelo crivo de nossa razão, a fim de conferir-lhe um significado pessoal que marque a nossa identidade.

Tenhamos a IA como uma mentora técnica. Suas ferramentas podem nos guiar, mas devemos sempre andar com os nossos próprios pés.

01 março 2026

Escrever

Escrever e falar podem ser sempre aprimorados. Existe alguma técnica específica? Como proceder? Há livros, cursos, professores e a Internet. Todos estes veículos de comunicação oferecem-nos sugestões valiosas, mas o trabalho maior pertence a nós mesmos. Quer dizer, se quisermos escrever temos de pegar a caneta, o papel e colocar mãos à obra. Em outras palavras, temos de aprender a escrever, escrevendo. Vejamos algumas dessas regras.

Coerência, clareza e concisão são as primeiras recomendações. A coerência diz respeito ao fluxo de ideias. A frase anterior tem que ter relação com a presente e esta com a seguinte, pois se não seguirem esse fluxo lógico, o leitor terá dificuldade para entender a lógica de um raciocínio. Para obter a clareza, as frases não devem ser rebuscadas, nem conter ambiguidade ou mesmo a vaguidade. Concisão é exprimir muito em poucas palavras. A navalha de Ockham é digna de nota: "onde houver duas definições, a que tiver menor número de palavras deve ser a preferida".

Compromisso com a verdade. Todos os que se colocam como propagadores da informação devem fazê-lo dentro de uma ética profissional, ou seja, evitar a perda de tempo do leitor. O mesmo se aplica ao discurso falado. Sobre esse mister, há uma advertência interessante: "aquele que não fosse sincero com o ouvinte ou leitor deveria morrer na cadeira elétrica". O tempo é o bem mais precioso que possuímos. Não deveríamos desperdiçá-lo com palavras vãs, discurso oco e histórias que não contribuem para o engrandecimento moral e espiritual do ser humano.

A introdução é um entrave? Em ensaios, ou trabalhos mais longos do que uma simples página, temos dificuldade de fazer a introdução. Os entendidos no assunto instruem-nos a deixar essa fase para o final do trabalho. Ao mesmo tempo, aconselham-nos a anotar o transcurso do pensamento, sem nos preocuparmos com a sua apresentação. Depois que tudo estiver documentado, forma-se naturalmente em nossa cabeça as palavras introdutórias ao tema. Basta apenas colocá-las no seu devido lugar.

A limitação de palavras imposta ao tema é difícil de ser seguida? Não desistamos. Se nos pedirem x linhas, devemos entregá-lo em x linhas, nem mais e nem menos. Como conseguir? Façamos por etapas: escrevamos o primeiro esboço; depois, vamos complementando-o. O computador auxilia, pois podemos ir acrescentando ao que já estiver digitado. Observe a montagem de um filme em que o diretor focaliza um tema específico e vai criando imagens acerca daquele tópico. A criatividade consiste nisso: ampliar as informações acerca de um mesmo tema.

Busquemos a coerência conosco mesmos. Ao escrever, escrevamos para informar ou educar, mas nunca para nos mostrarmos superiores aos outros.

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Palavras e Expressões dos Modernosos

O modernoso gosta de “atingir patamares”, “alavancar processos”, “desenvolver atitudes proativas” e “otimizar resultados”. Para ele, é preciso “tirar decisões”, “priorizar espaços”, “encontrar soluções” – “a nível de país”. E mais

Ele não vive sem o “beach-soccer”, o “delivery”, o “coffee-break” e o evento “in-company”, atividades que devem melhorar o “empowerment”.

Ele não convive; “vivencia”. Ele não anexa; “atacha”.

Para o perfeito “mix”, falta-lhe adotar “randomicamente” atitudes emblemáticas “enquanto ser humano”.

OLIVEIRA, J. P. Moreira de, MOTTA, C. A. de Paula. Como Escrever Melhor. São Paulo: Publifolha, 2000.

 

22 novembro 2025

O Cérebro e o Mundo Audiocentrado

O cérebro, composto por bilhões de neurônios, é um órgão que atua como a central de controle de todas as funções vitais, movimentos, pensamentos, emoções e memória. Sendo o centralizador dos sinais recebidos, pode se adaptar com facilidade. Seu lado mecânico: recebe e interpreta sinais do ambiente e envia mensagens para o resto do corpo. Nesse sentido, ele pode se tornar preguiçoso (lei do menor esforço). Forçando-o a novos desafios, ele também vai se tornando mais produtivo.  

O mundo audiocentrado refere-se a uma perspectiva cultural e social que coloca a audição e a comunicação oral como o sentido e o meio de interação predominantes e superiores. A voz, a imagem e o vídeo tornam-se os meios de comunicação em detrimento da escrita. Ao dar ênfase na audição, podem marginalizar ou desvalorizar a cultura e as sociedades das pessoas surdas ou com deficiência auditiva.

18 fevereiro 2025

Processo de Redação

Escrever bem não é tarefa fácil. Exige um esforço pela clareza, pela concisão, pelo uso correto das palavras, pela aversão aos jargões, pela superação dos bloqueios de escritor, pela organização das ideias. A poetisa, escritora e professora Betty Sue Flowers cunhou uma sigla que resume bem o trabalho de escritor: LACJ: em português seria Louco-Arquiteto-Carpinteiro-Juiz.

Louco — Nesta fase, há a procura de informações em livros, jornais, revistas, TV, rádios e demais fontes de informações. São ideias que vamos anotando sobre o tema, no sentido de obter o maior número de dados que, em princípio, estão desconectados. Aqui não há restrição moral, nem técnica, nem se são verdadeiros ou falsos. O trabalho é o de garimpagem, anotando tudo em uma folha de papel. Assemelha-se à “tempestade de ideais”, ao brainstorming.  

Arquiteto — Como bem sabemos, o arquiteto planeja casas, edifícios, distribuindo da melhor maneira os espaços disponíveis. No caso da escrita, organiza as informações e prepara um esboço mesmo que simples. O arquiteto vai elaborar um plano que se fundamenta na regra básica do discurso — começo, meio e fim. O objetivo, porém, não é atingir o ouvinte, mas o leitor. 

Carpinteiro — nessa fase, deve-se escrever o mais rápido possível — sem se preocupar em aperfeiçoar o texto. As correções virão depois. Não percamos tempo tentando corrigir e melhorar o texto. Se optarmos por essa ação poderemos ter o “bloqueio do escritor”. Mantenhamos o juiz bem longe de nossa vista.

Juiz — Por último vem o juiz, aquele que decide. É hora de pesar as palavras, preencher lacunas, ampliar algo e abreviar outro tanto. Lembremo-nos da frase atribuída a Blaise Pascal: "Se tivesse mais tempo, a minha resposta seria breve”. Ela reflete a ideia de que, muitas vezes, a clareza e a concisão exigem mais tempo e reflexão do que uma resposta longa. Por isso, um único rascunho pode não ser suficiente para a abordagem do tema.

Como vemos, há sempre um nova maneira de fazer o mesmo trabalho. Tenhamos sempre em mente o exercício da boa escrita.

Fonte de Consulta

GARNER, Bryan A. A Arte de Escrever bem no Trabalho. Tradução Paulo Afonso. Rio de Janeiro: Sextante, 2022. (Coleção Harvard: um guia acima da média)

 

 

 

17 novembro 2010

Folha em Branco

O que fazer diante de uma folha em branco? Escrever? Desenhar? Rabiscar? Rasurar? Pintar? Pensar numa tabula rasa? Escrever imediatamente algo para se ver livre da falta de assunto? Esperar aparecer as ideias criativas na mente? Como agir em função de um prazo estipulado?

A folha em branco não tem pressa; ela está ali, imóvel, esperando ser aproveitada da melhor forma possível. A preocupação é do escritor que terá de preenchê-la. Pensamos: será que aquilo que eu vou colocar ali será útil, servirá para alguém? O que pensarão a respeito do que eu vou escrever? Vão gostar? Vão jogar no lixo? Os escritos passarão despercebidos? Nada disso importa. Vale mais o exercício do que a expectativa de crítica. O importante é o exercício da criatividade.

A criatividade é uma palavra de difícil definição, mas uma coisa é certa: ela não cai do céu gratuitamente, pois nada vem do nada. Às vezes uma boa ideia, um insight é fruto de dias, semanas, meses ou mesmo anos de labuta. Observe a biografia de grandes cientistas: muitos deles esperaram anos a fio para poderem gritar eureka!, eu achei.

De vez em quando deveríamos relaxar e deixar que a nossa mente capte pensamentos do além, como fonte renovadora de nossa existência. Por isso, tenhamos sempre à mão lápis e papel, para não deixarmos que uma boa ideia genial se evapore por falta de registro, no exato momento em que apareceu.

A ideia anotada pode parecer banal. Não importa. É possível que depois ela se transforme em algo incomum, original, genial. Observe as novelas e os filmes: a maioria deles giram sobre o mesmo assunto, mas sempre com inovações do enredo.

15 julho 2009

Escrever: Exercício do Pensamento

Georges Picard enfatiza que todos os seres humanos deveriam escrever, não para publicação, mas para si mesmos, a fim de disciplinar o pensamento. É uma sugestão estimuladora, porque a maioria das pessoas que não lê não dá muita atenção à escrita. Para Picard, o ato de escrever é o "desejo de se descobrir tanto a si mesmo como aos outros". Ele defende a ideia de uma literatura livre, contrária ao canto de sereia do marketing e da publicidade, que procura reduzir tudo ao vendável.

Um bom método, para ler corretamente, é escrever o que se vê diariamente. São poucos os que percebem que escrever é uma espécie de trabalho. Observe o texto bíblico em que Adão, depois de ter pecado, recebe de Deus a seguinte advertência: "Por teres escutado a voz de tua mulher e comido da árvore da qual eu te havia prescrito não comer, o solo será maldito por sua causa. É com fadiga que te alimentarás dele todos os dias de tua vida. E com fadiga escreverás teus ensaios todas as noites de tua vida". (Gênesis, 3, 17) Escrever faz-nos pensar sobre um determinado assunto. Colocando-o no papel, memorizamos melhor o acontecimento.

A diversidade, as ideias contraditórias e a contestação são verdadeiras armas para aqueles que fundamentam os seus argumentos na esgrima da palavra. A oposição de ideias, tal qual Hegel defendia, é um verdadeiro manancial de conhecimento e aprendizagem porque a sequência de tese, antítese, síntese, tese, antítese, síntese... propicia-nos um conhecimento mais amplo e mais aprofundado de qualquer tema. Lembremo-nos de que a beleza da escrita está na tensão entre o que está escrito e o que está por ser escrito.

O ato de escrever é uma espécie de concentração, porque obriga aquele que escreve a ficar inteiro no que está escrevendo, sob pena de não anunciar a sua afetividade e o seu sentimento de maneira genuína e profunda. As notas valem mais do que as palavras. Escrever nos obriga a escolher entre um monte de ideias vagas aquelas que são mais compreensíveis ao texto. Claude-Louis Combet diz: "A dedicação à escrita, em todo o seu rigor de forma e em sua disciplina moral, estimula o recolhimento, o gosto pelo silêncio, a atenção do coração, o respeito pela língua, a renúncia à exterioridade".

No livro de Picard há diversas frases soltas: "’Escrevo, logo sou’ pode fundar uma ética da existência"; "não é com fatos, mas com palavras que se escreve"; "o escritor deve fugir do jogo de tolos que consiste em escrever obscuramente fingindo profundidade"; "pensar não significa fazer teoria, pensar é também compor ficção ou escrever poesia"; "na medida em que o cesto de lixo, físico ou virtual, se enche de rascunhos, cresce a energia intelectual mobilizada para chegar a uma página que valha a pena"; "é justamente porque não se tem nada a esperar do midiático e do social em geral que escrever parece ser, cada vez mais, uma vocação desinteressada".

Os slogans, as expressões audiovisuais e as imagens simplistas retratam o triunfo da literatura medíocre, da literatura pouco aprofundada e tendente à uniformidade. Para fugirmos dessa influência automática e rotineira, dediquemo-nos à escrita e à leitura de bons livros.

Fonte de Consulta

PICARD, Georges. Todo Mundo Devia Escrever: A Escrita como Disciplina do Pensamento. Tradução de Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola, 2008.

 

10 junho 2008

Exercitando a Escrita

O mundo atual é caracterizado pela mentalidade da notícia. Há informações e mais informações para serem inseridas em nosso banco de dados. Para tanto, o nosso cérebro deve ser intensivamente estimulado, a fim de poder suportar essa avalanche de pensamentos que nos chega a todo o momento. O registro e a manutenção de ideias são um fato real. A cada instante precisamos recorrer ao nosso passivo intelectual, no sentido de utilizar os dados armazenados em nossa memória.

Ao escrever aquilo que nos vem à mente, estamos aprendendo a observar e a pensar. Na realidade, não somos nós que produzimos os pensamentos; eles é que nos visitam. Colocando-os no papel, tomamos consciência dos mesmos. Além disso, o ato de escrever torna-nos conscientes da facilidade ou da dificuldade que temos para exprimi-los. Exercitando a escrita, vemos o quanto estamos distantes daquilo que pensamos. Ou seja, nem sempre encontramos as palavras corretas para expressar o nosso discurso mental.

Usar a palavra correta para exprimir o pensamento correto demanda trabalho. A maioria de nós escreve sem ter a dimensão exata de como uma palavra ou uma frase ecoa na cabeça daquele que a lê. Para que possamos bem expressar aquilo que pensamos, devemos escolher as palavras adequadas, esforçando-nos em procurar no dicionário toda palavra dúbia ou de sentido desconhecido. Lembremo-nos também de que a simplicidade, a clareza, a concisão e a objetividade são os pontos centrais em nossa comunicação, escrita ou falada.

Todos podemos e devemos escrever, mas os cientistas com muito mais razão, porque precisam veicular suas descobertas, o resultado de suas pesquisas. Por isso, o cuidado e a preocupação constante com a forma de nos expressarmos. Aí está inclusa a nossa personalidade. Um relatório, um recibo, uma carta mostra o que cada um é. Para que alguém nos conheça basta ler o que escrevemos. A soma de coisas pequeninas forma o conjunto do indivíduo. Cuidemos de que haja perfeição em cada um dos nossos atos, mesmo que os estejamos fazendo contrariados.

Devemos estar de atalaia; a cada dia que passa muitas coisas vão para o esquecimento. Urge, vez ou outra, consultar livros que tratam dessa matéria, ou seja, de como escrever melhor, com o intuito de estarmos sempre sendo lembrados desta nobre tarefa, que é de veicular as nossas pesquisas e os nossos insights para todos aqueles que fazem parte de nosso raio de ação. A palavra é o câmbio de nossa personalidade. Usemo-la a peso de ouro, se assim quisermos ser avaliados.

O discurso é a mensagem do coração. Saibamos colocá-lo com precisão, ou seja, onde houver necessidade de uma palavra, não usemos duas, onde houver necessidade de uma palavra curta não usemos uma comprida.

Fonte de Consulta

BARRASS, Robert. Os Cientistas Precisam Escrever: Guia de Redação para Cientistas, Engenheiros e Estudantes. Tradução por Leila Novaes e Leônidas Hegenberg. São Paulo: T. A. Queiros: Edusp, 1979.