10 fevereiro 2026

Circo de Palavras: Histórias, Poemas e Pensamentos (Notas de Livro)

Título: Circo de Palavras: Histórias, Poemas e Pensamentos

Autor: Millôr Fernandes

São Paulo: Ática, 2007.

Velhas novas fábulas

Fabulista é quem cria fábulas, ou é também aquele que as conta, e reconta, e assim sem querer as recria? Agora você vai acompanhar algumas histórias, umas muito antigas, outras quase novas. Talvez até sinta, ao virar a página, uma brisa vinda da Europa, da Índia... mas também um cheirinho de Brasil. Porque Millôr trouxe para cá estas histórias e recontou de um jeito todo próprio, todo brasileiro. Se quem conta um conto aumenta um ponto, quantos pontos Millôr teria aumentado? Você decidirá, durante a leitura.

Joãozinho, o monstro

Joazinho de automóvel

Corre a 90 no cais

Dona Marta ia passando.

Agora não passa mais.


Ode (ou elegia?) a um quase calvo

Ontem, hoje

E amanhã

O homem o cabelo parte

Parte o cabelo com arte

Até que o cabelo parte

 

Maturidade

O desenvolvimento 

Cerebral

Nunca se compara

Ao abdominal.

 

 Poesia matemática

Às folhas tantas

Do livro matemático

Um Quociente apaixonou-se

Um dia

Doidamente

Por uma Incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável 

E viu-a, do Ápice à Base,

Uma Figura Ímpar;

Olhos romboides, boca trapezoide, 

Corpo otogonal, seios esferoides, 

Fez da sua

Uma vida

Paralela a dela

Até que se encontraram

No Infinito.

"Quem és tu?", indagou ele 

Com ânsia radical.

"Sou a soma do quadrado dos catetos. 

Mas pode me chamar de Hipotenusa." 

E de falarem descobriram que eram 

— O que, em aritmética, corresponde 

A almas irmãs —

Primos-entre-si.

E assim se amaram

Ao quadrado da velocidade da luz

Numa sexta potenciação

Traçando

Ao sabor do momento

E da paixão

Retas, curvas, círculos e linhas senoidais.

Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas 

E os exegetas do Universo Finito.

Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.


E, enfim, resolveram se casar

Constituir um lar.

Mais que um lar.

Uma Perpendicular.


Convidaram para padrinhos 

O Poliedro e a Bissetriz.

E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro

Sonhando com uma felicidade 

Integral

E diferencial.

E se casaram e tiveram uma secante e três cones 

Muito engraçadinhos.

E foram felizes

Até aquele dia

Em que tudo, afinal,

Vira monotonia.

Foi então que surgiu

O Máximo Divisor Comum

Frequentador de Círculos Concêntricos.

Viciosos.

Ofereceu-lhe, a ela,

Uma Grandeza Absoluta,

E reduziu-a a um Denominador Comum. 

Ele, Quociente, percebeu

Que com ela não formava mais Um Todo,

Uma Unidade. Era o Triângulo, 

Tanto chamado amoroso.

Desse problema ela era a fração 

Mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade

E tudo que era espúrio passou a ser

Moralidade

Como, aliás, em qualquer

Sociedade.

 

 

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